Arte, algoritmos e empatia

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Pinturas feitas pelo robô criado por Ahmed Elgammal e sua equipe (Foto: Reprodução)

CAN estreou sua primeira exposição artística agora em outubro, nas cidades de Los Angeles e Frankfurt. Obsessivo que é, valeu-se de profundo aprendizado de arte e de diferentes estilos, além de um mergulho na psicologia, para produzir um trabalho inédito e… inumano. Creative Adversarial Networks (CAN) é um algoritmo computacional, baseado em redes neurais, treinado para ser artista. As suas imagens não são meras reproduções ou exercícios. Ao contrário, ele produz a partir de seu repertório e inova, rompendo com escolas anteriores.
O robô é fruto do trabalho de Ahmed Elgammal e sua equipe, ligados ao Laboratório de Arte e Inteligência Artificial da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey (EUA). CAN foi concebido para criar dentro de limites técnicos a que pessoas estão submetidas. Saiu-se bem. Em uma pesquisa, as suas obras foram consideradas de autoria humana por mais da metade dos entrevistados. Boa parte deles sentiu-se tocada pelo que viu e até julgou as pinturas superiores a de artistas reais.

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A ideia de um robô-artista não é nova. Nos anos 1970 o artista britânico Harold Cohen desenvolveu Aaron, um sistema de pintura computadorizado, dotado de Inteligência Artificial, ao qual ensinou a pintar com estilo próprio. Ao longo de três décadas, Aaron refinou seu estilo e ganhou recursos para colorir as imagens (inicialmente eram em preto e branco). Seu criador não o considerava criativo, mas lançou a questão: se aquilo não era arte, o que seria então?
Arte não é sinônimo de beleza faz tempo. Também não se limita ao campo da intuição, criatividade e originalidade (no sentido de ser única, autoral). Na prática, arte é o que uma lucrativa indústria composta por artistas, críticos, agentes, galerias e marchands assim define. O mictório de Marcel Duchamp (“A Fonte”) resume a ideia. Exposto em um salão de arte em 1917, gerou polêmica, mudou o conceito de obra artística e entrou para a história como tal.
Mas não é qualquer objeto que adquire esse status. Depende de quem e como o fez, onde foi exposto, do contexto histórico em que foi gerado e da narrativa que o acompanha. Arte é, acima de tudo, uma expressão de vida do artista, de suas aflições, expectativas, dúvidas e opiniões. Uma obra artística dialoga com seu tempo e problematiza temas em forma de literatura, música, artes plásticas e afins.
“Guernica”, de Picasso, é inesquecível porque retrata a imensa dor vivida pelo autor diante do ataque nazista à cidade homônima. E os algoritmos? O que os algoritmos vivem que possa ser expresso? Quais são as suas angústias? O que pensam e sentem em relação ao mundo? Desprovidos de conexões reais e significativas – com o tempo e o espaço –, eles, sim, podem produzir objetos estéticos. E ainda que o resultado seja apreciado, colecionado, comercializado e exposto em espaços artísticos, não se tratará de arte. Ao algoritmo sempre faltará vida interior e tudo de único que dela deriva, seja belo, contraditório ou desesperador.
Tem sido relativamente fácil para pesquisadores e indústrias, desenvolver tecnologias que superam o homem em rapidez, segurança e precisão. Para nós, usuários, elas também caem bem. Robôs que desarmam bombas, participam de cirurgias delicadas e desempenham tarefas repetitivas são exemplos disso. Mas aparatos tecnológicos que emulam capacidades intrinsecamente humanas – em cuidados hospitalares a pacientes terminais, atendimento a idosos, aconselhamento psicológico, planejamento estratégico ou nas artes – ainda são uma cópia tosca e simplificada de nós mesmos e daquilo que nos é tão próprio: a empatia, ou a arte de colocar-se no lugar do outro.

*CEO da Dentsu Aegis Network Brasil e Isobar Latam

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